Pesquisa revela impacto de fatores sociais no consumo infantil de ultraprocessados

Saúde

Pesquisa revela impacto de fatores sociais no consumo infantil de ultraprocessados

Uma pesquisa divulgada no dia 31 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) identifica que fatores sociais, como a sobrecarga materna, o preço acessível e elementos afetivos têm impulsionado o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas brasileiras.

O estudo entrevistou aproximadamente 600 famílias em três comunidades urbanas do Brasil: Guamá, em Belém (PA); Ibura, em Recife (PE); e Pavuna, no Rio de Janeiro (RJ).

Embora 84% dos entrevistados afirmem se preocupar muito com uma alimentação saudável, alimentos ultraprocessados compunham o lanche infantil em metade dos lares pesquisados. Além disso, esses produtos estavam presentes no café da manhã em 25% das residências.

Os ultraprocessados mais comuns nas casas foram iogurte saborizado, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo.

Esses produtos, de origem industrial, resultam da combinação de ingredientes naturais com aditivos químicos como corantes, aromatizantes e emulsificantes, possibilitando sua fabricação a baixo custo, com longa durabilidade e sabores intensos que podem gerar dependência no paladar.

Estudos científicos indicam que o consumo desses itens aumenta o risco de obesidade, diabetes, doenças cardíacas, depressão e câncer.

Na pesquisa, 87% das mães foram responsáveis pela compra e pelo serviço dos alimentos para as crianças, e 82% também realizaram a preparação. Entre os pais, 40% compraram alimentos, 27% cozinharam e 31% alimentaram as crianças.

Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, destaca a sobrecarga feminina nos cuidados alimentares: "Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. Essa sobrecarga torna a praticidade dos ultraprocessados mais atraente".

Outro ponto da pesquisa é o desconhecimento sobre os ultraprocessados. Muitos produtos dessa categoria, como iogurtes saborizados e nuggets fritos na airfryer, foram erroneamente considerados saudáveis pela maioria.

A rotulagem frontal que alerta sobre altos teores de sódio, açúcar e gorduras saturadas não é plenamente compreendida: 26% dos entrevistados desconhecem o significado desses avisos. Além disso, 55% nunca observam esses alertas, e 62% admitem nunca terem deixado de comprar um produto por causa deles.

O preço é outro fator: 67% consideram sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes baratos, enquanto 68% classificam legumes e verduras como caros, percentual que sobe para 76% em frutas e 94% em carnes.

Entrevistas aprofundadas revelaram um componente afetivo ao consumo dos ultraprocessados, associados a uma infância feliz, já que muitas famílias não podiam comprar esses alimentos na própria infância, comenta Stephanie Amaral.

Ela ressalta ainda que controlar o consumo é complexo, pois os malefícios à saúde são cumulativos e não imediatos. As escolas, segundo ela, são essenciais para promover alimentação saudável e influenciar positivamente as famílias, que demonstram grande confiança na alimentação escolar.

O Unicef recomenda avançar na regulação da publicidade infantil e na tributação dos ultraprocessados, ampliar creches e escolas em tempo integral para reduzir sobrecarga nas famílias, fortalecer a orientação alimentar nos serviços de saúde desde a gestação, apoiar iniciativas comunitárias que ampliem o acesso a alimentos saudáveis, promover campanhas educativas sobre rotulagem frontal e investir em comunicação que considere a realidade das famílias para incentivar hábitos alimentares saudáveis.

Créditos: Agência Brasil
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