Pesquisa revela baixo acesso a diagnóstico e terapia para autismo no Brasil

Saúde

Pesquisa revela baixo acesso a diagnóstico e terapia para autismo no Brasil

O Mapa Autismo Brasil (MAB), primeiro perfil sociodemográfico nacional sobre pessoas autistas, foi divulgado em 9 de abril de 2026 e mostra que o acesso ao diagnóstico e às terapias para autismo no Brasil ainda é limitado.

Realizado pelo Instituto Autismos, o estudo entrevistou autistas e seus cuidadores em todos os estados do país para identificar o perfil do autista brasileiro e quais serviços são acessados.

Foram coletadas 23.632 entrevistas online entre 29 de março e 20 de julho de 2025, incluindo 16.807 responsáveis por pessoas autistas, 4.604 autistas adultos e 2.221 participantes que se identificam como autistas e cuidadores.

Os dados indicam que, embora cerca de 25% da população tenha planos de saúde, apenas 20,4% informaram ter o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) confirmado pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Além disso, somente 15,5% dos entrevistados afirmaram realizar terapias pela rede pública, enquanto mais de 60% utilizam planos de saúde ou pagam particular para acessar esses serviços.

O Instituto Autismos ressalta que 56,5% dos entrevistados relataram que a pessoa autista faz até duas horas semanais de terapia, muito abaixo do recomendado internacionalmente, que é de terapias multidisciplinares com carga semanal elevada.

Em maio de 2025, o IBGE divulgou dados do Censo Demográfico 2022, apontando 2,4 milhões de pessoas com TEA no Brasil, o que corresponde a 1,2% da população.

Diferente do Censo, o Mapa Autismo Brasil detalha o perfil socioeconômico e o acesso a serviços, contribuindo para avaliar o cenário atual e as necessidades de políticas públicas.

Entre os cuidadores, 96% são mães ou pais, sendo 92,4% mães. Sobre escolaridade, 55,2% têm ensino superior completo ou pós-graduação, enquanto 30,47% declararam não ter renda ou estar desempregados. Muitos atuam como servidores públicos (21,9%) ou trabalhadores formais (16%), entre outros empregos.

Essa elevada proporção de cuidadores fora do mercado de trabalho sugere impacto das demandas de cuidado na vida profissional, aumentando vulnerabilidades econômicas e dependência de políticas sociais.

Dos entrevistados, 76,6% usam algum benefício, sendo os mais comuns o cartão de identificação da pessoa com TEA (36,7%), atendimento preferencial (30%) e vaga de estacionamento para pessoas com deficiência (20,7%). O acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC) é informado por 16,6%, o passe livre por 12,9% e a isenção do IPVA por 7,7%.

O MAB aponta dificuldades no acesso ao diagnóstico pelo SUS e atrasos no diagnóstico em geral, dificultando intervenções precoces. A maior parte dos diagnósticos ocorre até os 4 anos (51,7%), seguida das faixas de 5 a 9 anos (17,1%) e 10 a 14 anos (6,1%).

A mediana do diagnóstico é 4 anos, porém a média é mais alta (11 anos), mostrando que muitos diagnósticos ocorrem em idades mais avançadas.

Os primeiros sinais de TEA são percebidos especialmente por familiares próximos (55,9%) ou pela própria pessoa autista (11,4%), com médicos e professores identificando os sinais em menor proporção (7,3% e 9,4%, respectivamente).

Neurologistas e neuropediatras diagnosticam 67% dos casos, seguidos por psiquiatras com 22,9%. Isso evidencia a necessidade de especialistas, que nem sempre estão disponíveis nas redes pública e privada.

Quanto ao local do diagnóstico, 55,2% é feito na rede particular, 23% por planos de saúde e 20,4% pelo SUS, com maior dependência do SUS nas regiões Norte e Nordeste.

As terapias mais frequentes são psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%). Em menor escala aparecem fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11,0%), psicomotricidade (15,0%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%).

Por outro lado, 16,4% declararam não realizar terapias.

Entre os usuários do SUS, apenas 15,5% disseram fazer terapias pela rede pública, contra 35,3% que usam planos de saúde e 28,5% que pagam particular. Também 7,93% utilizam associações como a Apae.

Usuários do SUS têm menor acesso a sessões de psicoterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, terapia ABA, psicomotricidade e musicoterapia comparado a planos de saúde.

O investimento mensal em terapias concentra-se principalmente nas faixas de R$ 501 a R$ 1.000 (24,8%), R$ 1.001 a R$ 3.000 (22,2%) e R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Apenas 5,7% investem até R$ 100, 4,3% gastam mais de R$ 5 mil por mês e 4,2% não souberam informar o valor.

A carga semanal de terapias é baixa: a maioria realiza 1 hora (25,9%), nenhuma (18,13%) ou 2 horas (12,44%), e só 1,54% tem 40 horas ou mais. Isso indica limitações de acesso, custo e disponibilidade, mostrando que grande parte recebe suporte terapêutico insuficiente para suas necessidades.

Sobre educação, 83,7% frequentam instituições de ensino, sendo 52,26% escolas públicas e 31% particulares, enquanto 16% não frequentam nenhuma.

Quanto à inclusão, 39,9% afirmaram não receber apoio. Os apoios mais frequentes são educador social, monitor ou tutor (23,8%), acompanhamento especializado (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

O Instituto Autismos destaca que a presença na escola não garante inclusão efetiva e que a alta proporção de estudantes sem apoios revela fragilidades nas políticas de educação inclusiva e desigualdade no acesso aos recursos previstos em lei.

Na faixa etária entre 18 e 76 anos, 29,9% dos autistas estão desempregados ou sem renda, apontando um desafio estruturante de inclusão.

Dos que trabalham, 21,1% são servidores públicos, 20% têm emprego formal, 8,1% atuam como autônomos, 6,7% são pessoas jurídicas e 5,9% trabalham sem carteira assinada.

Além disso, 4,1% dependem de auxílio governamental, 3,5% recebem aposentadoria ou pensão e 0,35% fazem carreira militar.

Créditos: Agência Brasil
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