Pesquisa mostra que 90% dos moradores rejeitam operações policiais violentas no Rio

Segurança

Pesquisa mostra que 90% dos moradores rejeitam operações policiais violentas no Rio

Nove em cada dez moradores de comunidades do Rio de Janeiro desaprovam as operações policiais que envolvem confrontos armados, como as que têm ocorrido na capital nos últimos anos.

A conclusão vem de uma pesquisa inédita realizada por seis organizações da sociedade civil, que ouviram moradores de quatro comunidades sobre essas intervenções.

O estudo, divulgado em 20 de maio, entrevistou presencialmente 4.080 moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré (na zona norte) e Rocinha (zona sul), com 1.020 pessoas entrevistadas em cada uma das comunidades. A coordenação esteve sob responsabilidade da diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva.

A motivação para o estudo foi o aumento das operações com confrontos armados. Apenas na Maré, entre 2023 e 2025, foram registradas 92 operações policiais com confrontos, mortes e feridos.

Eliana Silva ressaltou que não se pode considerar que os moradores aprovam essas operações sem entender o contexto de suas vidas diárias, como trabalhar e levar os filhos à escola. Ela alertou para o risco de essa visão ser generalizada.

Os resultados indicam que 73% dos moradores das quatro comunidades rejeitam o atual modelo de operações policiais, 25% declararam concordar e 2% não responderam. Quando questionados se as operações devem seguir esse modelo, 92% reprovaram, 68% defendem alterações no formato e 24% acreditam que tais operações não deveriam ocorrer.

Entre os que aprovam essas operações, apenas 20% suportam o modelo atual.

Eliana destacou a necessidade de compreender essas intervenções para além da visão histórica que considera o confronto armado como única forma de atuação policial nas favelas.

Ela também apontou que os moradores são frequentemente representados de forma negativa, influenciando a crença de que a violência é a melhor resposta ao crime, sem considerar os efeitos na vida cotidiana.

Segundo a pesquisa, 91% acreditam que há excessos e ilegalidades por parte da polícia nessas operações. Essa percepção é compartilhada até por 85% dos apoiadores das intervenções. Para 90% dos entrevistados, esses excessos são inaceitáveis, e entre os que discordam das operações, 95% condenam a brutalidade.

Mesmo entre os favoráveis, 74% rejeitam os excessos policiais, indicando que concordar com as operações não significa aceitar a violência.

Eliana afirmou que não há solução para o combate ao crime organizado sem uma visão mais ampla e coletiva da cidade, criticando a visão focalizada apenas nas favelas, que também influencia os moradores.

A pesquisa também analisou os impactos das operações, apontando que 51% dos que discordam e 41,5% dos que concordam sentem restrição de circulação. Invasão de domicílios, comércios e veículos foi citada por 37,5% dos opositores e 22,9% dos favoráveis. Tiroteios e balas perdidas afetaram 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que apoiam.

Em 2025, a letalidade na Maré aumentou 58% em relação a 2024. Eliana defende alternativas ao uso de armas e fuzis no combate ao crime nas favelas, criticando investimentos públicos em armamentos policiais.

A operação mais letal da cidade, em outubro do ano passado nos Complexos do Alemão e da Penha, que resultou em 122 mortes, evidenciou que moradores não aprovam esse tipo de confronto.

Quando perguntados se operações similares deveriam ocorrer novamente, 85% disseram não, 7% às vezes, e 7% sim.

Eliana ressaltou que a segurança pública será tema importante nas eleições, alertando que candidatos que priorizam intervenções violentas nas favelas desconsideram os direitos dos moradores.

Ela recomendou atenção aos projetos dos candidatos relacionados à violência e combate ao crime, incentivando descrença em promessas simplistas.

A coordenadora também destacou a desigualdade na distribuição de políticas públicas e recursos, o que leva à condição de subalternidade dos moradores das favelas, cujo direito à vida muitas vezes é ameaçado durante operações com confrontos armados.

O estudo aponta ainda que entre os entrevistados negros, 81% rejeitam as operações policiais, percentual superior ao de outros grupos raciais. A concordância maior (30%) foi registrada entre pessoas brancas.

A percepção de racismo nas operações também é predominante, com 61% afirmando que existe, 13% considerando que ocorre às vezes e 25% negando.

Jovens entre 18 e 29 anos são os que mais discordam das operações (79%), possivelmente pela maior exposição direta ou indireta à violência decorrente dessas ações.

O medo da polícia é alto: 78% sentem pouco ou muito medo, sendo 85% entre os contrários às operações e 59% entre os favoráveis.

Os moradores demonstram uma inversão na percepção do Estado como protetor, já que 75% expressam alguma forma de indignação ou revolta diante das operações.

Mesmo entre os apoiadores, 61% manifestam revolta contra grupos armados. Chama atenção que 59% temem mais a polícia do que os grupos criminosos (53%), indicando que moradores enfrentam violência tanto policial quanto criminosa.

A pesquisa foi realizada pelas organizações Fala Roça, Frente Penha, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Redes da Maré e A Rocinha Resiste. Contou com o apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Fundação Tide Setúbal e Open Society Foundations.

Créditos: Agência Brasil
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