Manoel Carlos tinha uma marca característica em suas obras: as protagonistas chamadas Helena. Elas representam mulheres fortes que enfrentam dilemas cotidianos. A primeira Helena criada pelo autor, que faleceu no último sábado (20) no Rio de Janeiro, foi interpretada por Lílian Lemmertz em 'Baila Comigo', de 1981. Segundo Maneco, o papel foi escrito especialmente para ela.
"Era a história de uma mãe que se sacrificava pelo filho e por aquele amor, aquela mãe forte, que era a minha mãe. Lílian era assim. Escrevi o papel ouvindo a voz dela", afirmou o autor.
A atriz Júlia Lemmertz, filha de Lílian, recorda a animação da mãe durante as gravações da novela. Lílian foi a primeira Helena de Manoel Carlos em 'Baila Comigo' (1981) e, para ela, foi o trabalho televisivo que mais a satisfez. Júlia relatou que a mãe estava muito feliz, inspirada e falou sobre a intensidade do trabalho, revelando nunca ter decorado tanto texto na vida. Lílian Lemmertz faleceu cinco anos depois, no auge da carreira, aos 49 anos.
Para fechar o ciclo das Helenas, Maneco escolheu sua filha Júlia Lemmertz para interpretar a última personagem com esse nome na novela "Em Família", de 2014. Júlia contou que aceitou o desafio sabendo que seria uma grande aventura.
O comunicado oficial sobre a morte de Manoel Carlos confirmou seu falecimento por volta das 20h.
Manoel Carlos era um profundo conhecedor das relações humanas, em especial da alma feminina, e traduziu com maestria a relação entre mãe e filha, eternizada nas Helenas. Também popularizou o bairro do Leblon como cenário, inserindo personagens reais e humanos que sempre conquistaram sucesso.
Durante seus 60 anos de carreira, o autor também produziu minisséries como “Malu Mulher” (1980), “Presença de Anita” (2001) e “Maysa – Quando Fala o Coração” (2009). Entre suas novelas de sucesso destacam-se “História de Amor”, “Por Amor”, “Laços de Família” e “Mulheres Apaixonadas”.
Manoel Carlos Gonçalves de Almeida nasceu em 14 de março de 1933. Filho de José Maria Gonçalves de Almeida, comerciante, e Olga de Azevedo Gonçalves de Almeida, professora, ele se considerava paulista apenas pela certidão, mas afirmava o amor pelo Rio de Janeiro.
Seu caminho até se tornar um renomado autor da televisão brasileira foi pouco convencional. Começou aos 14 anos como auxiliar de escritório, mas já participava dos Adoradores de Minerva, grupo de jovens ligados à literatura e teatro, onde estavam Fernanda Montenegro e Fernando Torres.
Aos 17 anos, em 1951, estreou como ator na TV Tupi paulista, atuando e dirigindo vários programas, além de escrever peças para televisão. Passou por diversas emissoras como TV Record, TV Itacolomi, TV Rio e TV Tupi.
Durante a década de 1960, trabalhou nas últimas produções da TV Excelsior e na TV Rio, onde dirigiu programas com Chico Anysio e colaborou em projetos humorísticos.
Chegou à Globo em 1972 como diretor-geral do programa 'Fantástico', cargo que ocupou por três anos. Em 1978, adaptou o romance 'Maria Dusá' para a novela 'Maria, Maria', sua primeira telenovela na emissora, exibida no horário das 18h com direção de Herval Rossano e Nívea Maria no papel principal.
Manoel Carlos teve três casamentos e deixou cinco filhos, entre eles a atriz Júlia Almeida, que desde pequena o acompanhava e apoiava na escrita das cenas.