Para pessoas com deficiência visual, ações como atravessar a rua, usar tecnologia, ingressar na universidade ou desenvolver habilidades artísticas representam passos fundamentais para a independência. Há 74 anos, o Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte (IERC-RN) contribui para esse avanço, evidenciando que enxergar não é a única forma de perceber o mundo.
Nas quadras de goalball, o silêncio e a atenção ao som do guizo na bola são essenciais para que os atletas possam defender, atacar e se orientar. Foi nesse cenário que Maria Clara Nascimento consolidou a independência que mantém fora do esporte. Cega desde os 12 anos devido a complicações do parto prematuro, ela superou desafios cotidianos de acessibilidade.
No goalball, esporte paralímpico para pessoas com deficiência visual, Maria Clara encontrou paixão e aprimorou sua percepção auditiva, habilidade vital para seu deslocamento autônomo pela cidade. A treinadora a reconhece como uma "grande jogadora" devido à sua dedicação e evolução gradual.
Além do esporte, Maria Clara investe na educação. Graduada em Física, desde 2024 cursa Letras, utilizando transporte público sozinha. Ela ressalta que, embora a inclusão exista no papel, a verdadeira educação inclusiva ainda é distante. Destaca o apoio recebido, mas também a falta de recursos acessíveis, como a máquina braille da universidade que está quebrada.
No IERC, o caminho para a autonomia é diverso. Para Ana Beatriz Lopes, a música desempenha esse papel. Com 19 anos, totalmente cega desde bebê, ela compõe, toca violão e sonha cursar Licenciatura em Música na UFRN. Moradora de Acari, viaja 215 km a cada semana para participar das atividades do instituto.
Beatriz expressa a independência como resultado do acesso a oportunidades, apoio e confiança. Ela reforça que a deficiência não deve definir a pessoa, e que com esforço é possível alcançar qualquer objetivo.
Pedro Marcelino, que perdeu a visão devido à diabetes aos poucos desde 2004, relata sua experiência de adaptação. Inicialmente resistente ao uso da bengala, passou a valorizá-la como símbolo de autonomia após perceber sua necessidade. Estudou Produção Cultural e mantém uma vida ativa e participativa.
Adlia Freitas, diagnosticada com neuromielite óptica, ainda mantém parte da visão e luta para adaptar-se a essa condição progressiva. No instituto, aprendeu o sistema braille que aumentou sua independência e utilidade social.
A diretora Gleide Medeiros destaca que a maior missão do IERC-RN é ensinar seus alunos a conquistarem independência e mostrar que a deficiência visual não impede felicidade e realização de projetos.
Marcos Antônio da Silva, presidente do IERC e ex-aluno, reforça que inclusão é mais que acesso a escola e trabalho, é garantir instrumentos que possibilitem autonomia e cidadania plena. Para ele, o maior legado do instituto, ao longo de 74 anos, é promover justamente essa inclusão e independência.
Atualmente, o instituto atende 164 pessoas de todas as idades. Marcos relembra que aprender a usar a bengala, ler em braille ou usar tecnologias assistivas representa a conquista da independência e qualidade de vida.
Ele também menciona que o maior desafio para o IERC-RN é financeiro, com sua manutenção baseada principalmente em doações da comunidade e convênios que disponibilizam alguns profissionais via poder público.
Créditos: Tribuna do Norte