Quando se fala em startups, inteligência artificial e inovação tecnológica, o imaginário popular costuma apontar para grandes centros urbanos, universidades renomadas ou polos tecnológicos espalhados pelo país. Mas uma iniciativa que nasceu dentro de uma escola em Currais Novos, no Seridó potiguar, está mostrando que a inovação também pode surgir longe dos grandes centros e a partir de problemas reais do cotidiano.
Foi da observação da rotina de professoras da educação infantil que nasceu a NARAEDU, sigla para Núcleo de Acompanhamentos e Registros Acadêmicos, uma plataforma desenvolvida para auxiliar educadores na produção de relatórios pedagógicos e no acompanhamento do desenvolvimento das crianças.
Por trás da ideia está a empresária e educadora Beatriz Dantas, sócia da Escola Unica Master, uma instituição de ensino em Currais Novos. Mas a história da plataforma vai muito além da criação de um aplicativo. Ela revela como uma necessidade vivida dentro de uma escola se transformou em um projeto de inovação que hoje reúne profissionais da educação, programadores, pesquisadores universitários e instituições de fomento à tecnologia.
Tudo começou a partir de uma dificuldade comum entre professores da educação infantil. Ao longo dos meses, os educadores registram observações sobre comportamento, aprendizagem, interação social e desenvolvimento das crianças. No fim de cada período letivo, todas essas informações precisam ser organizadas e transformadas em relatórios detalhados para as famílias.
“Percebemos que as professoras passavam muitas horas organizando informações e construindo relatórios. Era um trabalho extremamente importante, mas também muito desgastante”, relembra Beatriz.
Durante três anos, a empreendedora buscou soluções no mercado. Participou de feiras de educação, conversou com especialistas e pesquisou ferramentas utilizadas em outros países. Nenhuma delas, porém, atendia às necessidades encontradas na realidade da educação infantil.
Foi então que nasceu a decisão de desenvolver uma solução própria.
Sem experiência na área tecnológica, Beatriz precisou mergulhar em um universo completamente novo. Aprendeu conceitos de programação e inteligência artificial para conseguir transformar a visão pedagógica da escola em uma ferramenta digital funcional.
Além da busca por conhecimento técnico, Beatriz encontrou no Sebrae um importante aliado durante sua jornada empreendedora. Por meio de capacitações, orientações e acompanhamento especializado, a empresária recebeu suporte para estruturar o negócio, validar a proposta e compreender os caminhos necessários para transformar uma necessidade vivida dentro da escola em uma startup com potencial de expansão.
“Muitas vezes a gente tem uma boa ideia, mas não sabe como transformá-la em negócio. O Sebrae teve um papel importante nesse processo, ajudando a enxergar possibilidades, organizar etapas e fortalecer o projeto”, destaca a empreendedora.
O resultado foi uma plataforma capaz de registrar observações do dia a dia escolar, cruzar informações e auxiliar na construção de relatórios individualizados, oferecendo aos professores mais organização e às famílias uma visão mais completa do desenvolvimento das crianças.
Mas o processo de inovação não parou aí.
Durante a fase de testes, uma escola de Fortaleza apresentou uma dificuldade inesperada: os professores não podiam utilizar celulares durante o expediente. O que poderia representar um obstáculo acabou se transformando em uma nova oportunidade.
Da necessidade surgiu a “Narinha”, um dispositivo físico desenvolvido para permitir que professores registrem observações por meio de áudio durante as atividades em sala de aula. O equipamento está sendo construído em parceria com pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
A iniciativa evidencia como o ecossistema de inovação do interior potiguar vem se fortalecendo nos últimos anos, aproximando educação, tecnologia, pesquisa científica e empreendedorismo.
Outro passo importante para o crescimento da startup aconteceu com o acesso ao crédito. Por meio do programa FNE Startups, do Banco do Nordeste, a empresa conseguiu recursos para ampliar sua equipe e acelerar o desenvolvimento da plataforma. A NARAEDU também avançou em etapas do Programa Centelha, uma das principais iniciativas de incentivo à inovação tecnológica do país.
Hoje, a startup está em processo de validação em escolas do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará.
O apoio recebido ao longo da trajetória contribuiu para que a NARAEDU avançasse de uma solução criada para atender uma necessidade interna da escola para uma plataforma em processo de validação em diferentes estados do Nordeste. Com orientação empresarial, acesso a programas de inovação e conexões estratégicas, a startup passou a estruturar seu plano de crescimento e ampliar sua presença no mercado educacional.
A experiência reforça o papel do empreendedorismo como ferramenta de transformação social e demonstra como iniciativas nascidas no interior do Rio Grande do Norte podem ganhar escala quando encontram ambiente favorável para inovação e desenvolvimento.
Para especialistas, histórias como essa demonstram que a inovação não depende exclusivamente da localização geográfica, mas da capacidade de identificar problemas e construir soluções.
No caso da NARAEDU, a tecnologia nasceu dentro de uma sala de aula, impulsionada por uma necessidade concreta da educação infantil. E foi justamente essa conexão com a realidade que transformou uma escola do Seridó em um laboratório de inovação capaz de despertar interesse muito além das fronteiras do Rio Grande do Norte.