Berço da oposição ao Mercosul: fazenda francesa de Anaïs reflete desafios

Economia

Berço da oposição ao Mercosul: fazenda francesa de Anaïs reflete desafios

Anaïs Boudal, criadora de gado na cidade de Courpière, interior da França, representa a pressão enfrentada pelos pequenos agricultores franceses com o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. O pacto evidenciou a desigualdade de escala entre produtores europeus e países como o Brasil, reacendendo protestos no setor marcado por baixos rendimentos, dependência de subsídios e longas jornadas de trabalho.

Enquanto ocorre manifestação em Paris contra o acordo, o presidente Emmanuel Macron anunciou que não ratificará o tratado. Agricultores franceses consideram o acordo uma ameaça, pois abre o mercado europeu para importações de países como Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai a preços mais baixos. A Interbev, associação que reúne profissionais da cadeia produtiva da carne, classificou o acordo como "inaceitável", criticando a política comercial da UE que não protege seus produtores.

Anaïs, de 37 anos, trabalha sozinha na gestão da fazenda, contando apenas com Puma, um cachorro border collie adotado recentemente para auxiliar no manejo do rebanho de 128 cabeças das raças ferrandaise e cruzamento com limousin, distribuídas por 80 hectares. Seu tamanho de propriedade é próximo da média nacional francesa, de 69 hectares, que abriga aproximadamente 17 milhões de cabeças de gado, contra 238 milhões no Brasil. Essa grande diferença de escala, somada às exigências europeias, é a raiz do descontentamento dos agricultores na França.

Formada com um Brevet Professionnel d'Exploitation Agricole e mestrado em gestão empresarial, Anaïs iniciou o negócio em 2018 com empréstimo de 200 mil euros, a ser quitado até 2029. Seu objetivo sempre foi empreender de forma independente, motivada pela tradição familiar no campo e no açougue, setor no qual seu pai trabalhava.

O primeiro cliente foi o açougue do pai, comprador da carne de vitela. Enfrentando dificuldades, principalmente com a raça ferrandaise, Anaïs reestruturou em 2023 o negócio, promovendo cruzamento entre ferrandaise e limousin e limitando a venda de vitela ao período de agosto a outubro para reduzir os custos com alimentação diária dos bezerros. O restante dos bezerros é vendido para Espanha e Itália para engorda.

Sua rotina no inverno é intensa, com trabalho diário desde o nascer do sol até à noite, sem folgas, e apoio do companheiro somente nos fins de semana. Entre fevereiro e março, quando ocorrem os partos, Anaïs retorna à fazenda várias vezes à noite para acompanhar os nascimentos, visto que perdas representam grande prejuízo.

O setor enfrenta baixa remuneração: o Instituto Nacional de Estatística francês informa que agricultores ganham em média 2.290 euros mensais, abaixo do custo de vida local, o que resulta em 17,7% deles vivendo abaixo da linha da pobreza. Essa pressão, aliada ao isolamento e à exaustão, gera sério impacto na saúde mental, com risco de suicídio 30,9% maior que a população geral — chegando a 77,3% entre proprietários rurais.

Apesar do negócio estar financeiramente estável, com capacidade de pagar o empréstimo, Anaïs recebe salário inferior ao mínimo francês, complementado por subsídios regionais, nacionais e da União Europeia, principalmente pela Política Agrícola Comum (PAC). Ela, porém, lamenta a necessidade dessas ajudas, pois acredita que aumentos nos subsídios são seguidos por elevação nos preços de insumos.

Em 2025, os produtores registraram aumento de 50% nos preços da carne em relação ao ano anterior. Anaïs recebeu valores entre 4,70 euros por quilo da raça ferrandaise e 5,80 euros pelo cruzamento com limousin. Na França, a remuneração é feita apenas pelo peso da carcaça, enquanto no Brasil alguns frigoríficos também pagam por vísceras e couro.

Além da rotina pesada, Anaïs lida com burocracias constantes, como pedidos de subsídios, exigências sanitárias, rastreabilidade e descarte de animais mortos. A papelada é tão intensa que demanda uma semana quase integral a cada ano.

Anaïs reconhece que no campo o retorno financeiro é lento, levando de seis a dez anos para que o negócio se pague, mais longo que em outras áreas. Para ela, os cuidados com os animais são essenciais, um respeito que inclui a consciência dos ciclos de vida e morte que sustentam a alimentação da população.

Este retrato ilustra a difícil situação dos pequenos agricultores franceses diante do mercado global e dos impactos de acordos que abrem concorrência com grandes produtores internacionais.