O acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia deve favorecer especialmente as classes A e B brasileiras, pois facilitará o acesso a produtos cotidianos antes dificultados pelas altas alíquotas de importação. Vinhos, queijos e chocolates europeus, por exemplo, deverão competir nas gôndolas dos supermercados brasileiros nos próximos anos.
A redução dessas tarifas será gradual, com prazos que podem chegar a 15 anos para alguns itens, permitindo que os setores locais se preparem para a concorrência com os produtos europeus. Entre os itens beneficiados estão vinhos, queijos, azeite e chocolates.
Apesar da diminuição das tarifas, o atual câmbio do euro, cotado a R$ 6,24, limita a entrada de produtos muito caros. Roberto Kanter, professor da FGV, explica que se o euro estivesse cotado a R$ 3, haveria maior possibilidade de acesso a produtos europeus de alta qualidade a preços mais acessíveis.
Os produtos que chegarão são os que têm preços acessíveis na Europa, mas ficam caros quando importados. Itens considerados supérfluos, como queijo, vinho e chocolate, serão os principais a desembarcar no Brasil.
Marcas europeias populares devem tentar entrar no mercado brasileiro, mas podem focar mais no público das classes A e B, já que a classe C dificilmente terá acesso a esses produtos. O mercado nacional, especialmente no setor de chocolates, é competitivo, já que o Brasil é o maior produtor mundial de cacau. Chocolates premium europeus poderão chegar em volumes pequenos e para lojas de alto padrão, sem alterar significativamente o mercado.
Por outro lado, o acordo representa uma oportunidade para que produtos brasileiros ganhem espaço na Europa. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), João Dornellas, destacou que o tratado pode ser o impulso para transformar o país de exportador de matéria-prima em exportador de produtos com valor agregado.
Além dos alimentos, outros produtos do cotidiano terão suas alíquotas reduzidas gradualmente. Medicamentos como analgésicos, antitérmicos, anti-inflamatórios, antigripais e antialérgicos terão suas tarifas zeradas em até dez anos.
O setor automotivo também deve se beneficiar do acordo. A associação das montadoras (Anfavea) considera o tratado positivo, mas com impactos a longo prazo, sobretudo para as montadoras e componentes, que terão um período para se preparar para a concorrência.
Para Roberto Kanter, o mercado de reposição de peças pode crescer, já que a demanda é maior que para carros novos, e as empresas brasileiras deveriam focar em ampliar a exportação para a Europa.
Segundo ele, o Brasil deve aproveitar mais a abertura comercial para ampliar a exportação de serviços tecnológicos, uma área de potencial crescimento diante do perfil do mercado europeu, que não é uma grande indústria, mas tem demanda por serviços, luxo e bens de consumo.
O tratado entre Mercosul e União Europeia foi aprovado pela Comissão Europeia, reunindo um mercado de 722 milhões de consumidores. Apesar de oposição de países como a França, o acordo recebeu o apoio necessário para que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, assine o tratado em 17 de janeiro no Paraguai. O Parlamento Europeu ainda precisará aprovar o acordo antes de sua entrada em vigor.
O acordo é considerado fundamental para a União Europeia nos aspectos econômico, político, estratégico e diplomático, conforme declarou Olof Gill, porta-voz da Comissão Europeia.